domingo, 17 de abril de 2016

A História de um milagre - parte II

No dia seguinte, já no final do dia, o Emerson recebeu uma ligação da médica, pedindo para que fossemos ao plantão dela no hospital, pois ela gostaria de conversar conosco pessoalmente.
Assim fizemos. 
Ao chegar lá, ela pediu para que sentássemos, colocou diante de nós uma literatura imensa e assim iniciou a conversa:
- Desculpe queridos, infelizmente a filha de vocês é portadora de uma má formação na coluna, chamada meningomielocele. Isso não é problema com nenhum de vocês. É uma má-formação do feto. Poderia acontecer com qualquer pessoa, sua irmã, sua amiga, sua vizinha, mas aconteceu com você. 

👉Para vocês entenderem o que é a doença:

Meningomielocele é um defeito aberto do tubo neural que ocorre pela falta de fechamento dos elementos posteriores da coluna, que protegem a medula. A exposição da medula ao líquido amniótico durante toda a gestação acarreta uma lesão progressiva. As complicações durante a vida como pé torto, (pé voltado para dentro), medula presa, escolioses graves, não andar, hidrocefalia, distúrbios psicológicos, problemas urológicos que podem variar desde infecções urinárias graves e não ter o controle do esfíncter até a perda de função renal.

E continuando, a médica completou...
- Nós precisamos interromper esta gestação imediatamente. Pois se esse bebê chegar a nascer com vida, pois você pode perder a qualquer momento, ela será uma criança toda problemática. Não irá andar, falar, irá usar fraldas para o resto da vida e pode ser que tenha também retardamento mental. Isso é, essa criança irá vegetar em cima de uma cama. Então, a melhor solução mesmo é tirar, o quanto antes.
Neste momento, eu não me continha de tanto chorar e o Emerson me abraçava e chorava junto. E a médica continuava a falar...
- Vocês terão filhos perfeitos. Infelizmente essa fatalidade aconteceu com você Carla e com você Emerson. Vocês precisam ser fortes! Eu só Te peço uma coisa, aborto clandestino não, viu? Eu te darei o nome do remédio que você irá comprar. Não se encontra em farmácias. Você irá tomar, pouco tempo depois você sentirá muitas dores abdominais, neste momento o bebê estará morrendo, você virá para o hospital como se tivesse tendo um aborto espontâneo e assim faremos a curetagem.
Sim meninas, eu não estou aumentando nada. Foram estas as duras e frias palavras da minha então ginecologista.
E neste momento, chorando muito, meu marido se levanta, dá um forte soco na mesa e olhando firme para a médica, diz:
- Eu não vou tirar a vida da minha filha! E não vou permitir que você faça isso! Eu não aceito esse diagnóstico e quero fazer outros exames com outros médicos. Quero saber a opinião de cada um a respeito, quero pesquisar, me informar sobre isso. E se Deus nos escolheu para nos dar uma filha com problemas, quem somos nós para irmos contra a vontade dele?! Deus não nos dá provação maior do que possamos suportar! Se Ele me mandar uma filha com problemas, eu irei amá-la da mesma forma que amaria, se ela fosse perfeita.
Neste momento a médica diz:
Sim Emerson, eu te dou o direito de fazer novos exames, mas só te digo uma coisa: o tempo está passando, a Carla já está caminhando para o quinto mês de gestação e nós não podemos esperar muito. O quanto antes tirarmos, melhor.
E novamente o Emerson repete em alto e bom som:
- Nós não vamos tirar! Eu quero a minha filha da forma que Deus mandar!!
E a médica disse:
- Eu acho egoísmo da sua parte, querer que uma criança venha ao mundo dessa forma, para sofrer! Ela será uma criança TODA PROBLEMÁTICA, que irá vegetar em uma cadeira de rodas, sem andar, sem falar, olhando para outras crianças brincando e jamais poderá estar ali, no meio delas. Isso é muito egoísmo! Vocês são muito jovens e terão filhos perfeitos. Essa criança será um problema na vida de vocês!!
Enquanto eu me desmanchava em lágrimas, o Emerson me levantou da cadeira, me abraçou e disse a médica:
- Eu não irei desistir da minha filha e lutarei pela vida dela até o último momento!
Viramos e saímos da sala.
Desde aquele dia, partimos em busca de novos diagnósticos.
Fizemos quinze ultrassons, com quinze médicos diferentes e todos eles em unanimidade, pediram para que tirássemos a nossa filha.

(continua…)

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* Este texto foi escrito por Carla Toledo, é uma história real, vivenciada na cidade de Belo Horizonte (MG - BR) iniciando-se no ano de 2001 e,  está dividida no blog por capítulos para facilitar a leitura e compreensão dos fatos narradas pela autora.

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